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10 out

MultiplayerAlém do peão e do dado

  • 10 COMENTÁRIOS

Esse artigo estréia a sessão Multiplayer, onde autores convidados tem espaço para discutir sobre seus jogos favoritos, e todo o projeto por trás deles.

Por Antonio Marcelo

Lembro-me na década de 80 que o Brasil tinha um mercado muito vasto de jogos de tabuleiro. Lembro-me ainda de jogar com meu pai e minha mãe os chamados clássicos, como War, Banco Imobiliário, entre outros. Contudo quando comecei a descobrir os computadores e os videogames, estes jogos foram esquecidos e no resto do país semelhante fenômeno aconteceu. No final da década de 80 o videogame, o RPG e os cardgames começaram a colocar de lado os jogos de tabuleiro no país e no mundo. Colaborando com isto, as empresas nacionais não se preocuparam em inovar e isto levou a um marasmo neste mercado.

Nos anos 90 começou na Alemanha uma revolução silenciosa no mundo dos jogos. Esta revolução que mudou a cara e o formato, além de investir num mercado muito mais maduro e voltado para a família. Em 1995 um jogo chamado Settlers of Catan (Colonizadores de Catan), “tomou de assalto” o mercado, criando assim uma nova e maravilhosa cultura dos jogos de tabuleiro. O Catan trazia uma nova visão aos jogos onde o raciocínio e a sorte, aliados a uma arte muito bela recuperavam o hábito dos jogos entre as pessoas. Este título abriu as portas para diversos outros e em breve um novo mercado explodia : nasciam os chamados jogos alemães, ou eurogames.

Os Eurogames são jogos onde a abstração, beleza e a simplicidade (não confundir simples com simplório) são primordiais. Os jogos na sua ampla maioria não utilizam nenhum tipo de dado (isto mesmo: não existem dados no jogo) e a vitória é conseguida no esquema dos chamados pontos de vitória. O jogador que conseguir completar objetivos conseguirá mais pontos de vitória e assim vencerá a partida. Em muitos casos, o critério de desempate pode ser bens ou mesmo dinheiro. Um exemplo muito bom é o Puerto Rico, outro clássico do genêro.

Outro ponto importante é a visão de que sempre são grupos de pessoas que os jogam (são raros os jogos para duas pessoas, mas mesmo estes podem ser adaptados para mais participantes), onde o tempo de uma partida não é longo (duração de no máximo 60 minutos), sendo que em muitos casos existem fatores que limitam o tempo (número específico de turnos, número específico de recursos, etc), regras fáceis de aprender, alta jogabilidade e são extremamente atraentes. (em termos de beleza gráfica são verdadeiras obras de arte)

Além disso, os temas explorados pelos mesmos são variados, desde colonialismo, passando pela administração de uma empresa elétrica, até a organização de shows na Roma antiga, entre outros. Eles parecem complicados de entender, mas são espetaculares e divertidos. Diversos mecanismos de jogo foram desenvolvidos : baseados em leilão, gerenciamento/organização de recursos, construção/manutenção, controle de área, etc. Estes mecanismos foram que trouxeram a inovação, modernizando diversos conceitos e “aposentando” outros. Daí que chamamos estes jogos de modernos, já que a velha filosofia de “rolar dado e movimentar um peão” não existem.

Diferente do que se pensa no Brasil, no exterior, os jogos não são produtos só para crianças, e sim uma forma de divertimento em que toda a família participa. Além disso existem títulos voltados para o público adulto, que além do ato de jogar, promove o convívio social.

Nosso país está parado no tempo no que diz respeito aos jogos e ainda apresenta a mesma filosofia de 40 anos atrás. Infelizmente no Brasil ainda não existem jogos modernos. Enquanto aqui ainda jogamos Banco Imobiliário e War, no exterior existem jogos onde as pessoas desenvolvem diversas opções de entretenimento. Imagine você dono de uma empresa de iluminação e precisa administrar usinas, comprando combustível para aliementá-las, num mercado onde pode existitr especulação? Ou ainda ser uma tribo na pré-história e tentar sobreviver? Ou então ser um nobre na época medieval em Paris? Tudo isto existe nos jogos modernos e muitos brasileiros infelizmente não tem isto ao seu alcance (só importando mesmo…)

Fatores Importantes nestes jogos

Os jogos modernos possuem pontos que os identificam claramente :

a) Regras simples, mas com resultados complexos – as regras num primeiro momento em muitos jogos os deixam com o aspecto simples, mas quando conhecemos as facetas dos mesmos começamos a enxergar que os mesmos possuem diversos mecanismos diferentes que levam a vitória;

b) Rejogabilidade – Esta palavra indica que os jogos modernos não tem uma sequência única de vitória, ou seja em cada partida diversos vitórias podem ser conseguidas, um grande exemplo é novamente o Puerto Rico que citamos acima. O jogo tem um guia de estratégia para vitória, e alguns jogadores o comparam ao xadrez.

c) Beleza Gráfica – Todos os jogos são lindos, verdadeiras obras de arte, que são produzidos com um esmero gráfico e capricho extremo. O Thurn and Taxis por exemplo possui um belissímo tabuleiro.

d) Ausência de “sorte” – os jogos não são decididos por rolar de dados e sim por uma estratégia dos jogadores e a montagem de jogadas que possam conduzir a vitória. Jogos que aindam contam com um pouco de sorte possuem mecanismos de minimização que os tornam extremamente de raciocínio. (não os tornam “chatos” em hipótese alguma !)

e) Temas diversos – Você poderá encontrar desde a administração de uma empresa, até leilão d eobras de arte. O universo é vastissímo.

f) Os jogadores nunca são eliminados do jogo – Estes jogos nunca eliminam um jogador e o combate é muito, mas muito raro.

Palavras finais

Por ser um artigo bem introdutório, gostaria de convidar a todos a comentaram sobre o mesmo e começarmos a discutir mais sobre o assunto. Nossa idéia é começar a mitigar na cabeça dos designers novas formas de jogos de tabuleiro, diferentes da “pobreza” que existem hoje no Brasil. Gostaria muito de receber emails de todos para que possamos levar esta discussão a todos.

Antonio Marcelo é autor de 14 livros sobre Linux, TI e Segurança da informação, sendo especialista na área de governança de TI e segurança de informação. Como segunda profissão coordena o estúdio de jogos Riachuelo Games e é autor de diversos jogos como: Batalha Naval do Riachuelo, Colonial, Piratas Paraguaios, Cruz de Ferro, ECOnomia, Tau Ceti entre outros. Além dos jogos de tabuleiro possui uma segunda paixão: mergulho autônomo.



10 comentários para “Além do peão e do dado”

  1. Formiga

    Marcelo,
    Ótimo texto sobre jogos de tabuleiro mas discordo que “Nosso país está parado no tempo no que diz respeito aos jogos e ainda apresenta a mesma filosofia de 40 anos atrás. Infelizmente no Brasil ainda não existem jogos modernos”. Comercialmente falando isto está, praticamente, correto. Isto é, no comércio de massa não existe oferta de jogos modernos. Quando existiu foi muito rapidamente e, às vezes, com qualidade ruim. Não podemos esquecer os vários encontros que estão crescendo, mesmo com grandes dificuldades, pelo Brasil a fora. Abraços…

  2. Ian

    Marcelo:

    Parabéns pelo texto. Mas gostaria de chamar a atenção para iniciativas nacionais que começam a despontar, e indicam, espero, uma saída do “limbo lúdico” que nos encontramos, como os jogos do André Zatz e Sérgio Halaban, que foram publicados no mercado nacional, e alguns ainda podem ser encontrados (como o Riquezas do Sultão e o Jogo dos Conquistadores), que introduzem alguns elementos euro ao mercado nacional.

    Além disso, acho que seria importante destacar a crescente organização da comunidade lúdica nacional, especialmente na forma da “Ilha do Tabuleiro” (da qual você participa ativamente, se bem me lembro), e na revista virtual Strategos (da sua segunda empresa por sinal) – apesar desta não ser voltada especificamente para jogos europeus

    Ademais, acho que o termo “ausência de sorte” foi um pouco exagerado para definir os euro-games como um todo.

    Certamente ela não é determinante, sendo virtualmente ausente em alguns casos como Puerto Rico e Power Grid, por você citados, mas em outros ela se apresenta em algum nível, como no Settlers from Catan, apesar de não ser, reforço, determinante – diferentemente da maioria dos jogos encontrados no mercado nacional.

    Mais uma vez, meus parabéns pelo artigo. Se posso deixar uma sugestão para um artigo futuro, talvez haja algum jogo print-and-play de estilo euro que você possa apresentar para que todos possam sentir um gostinho do que você falou em seu artigo.

  3. Marcelo Nunes

    Fale Antonio, parabéns pelo texto.. da uma ótima visão geral do começo dos jogos e sua filosofia em especial para os que não estão acostumados com este ambiente e, como você mesmo disse, acham que os jogos são apenas para crianças.

    Gostaria de te corrigir , há sim jogos modernos no Brasil, procure pela ceilikan ( http://www.ceilikan.com.br ) e pela odysseia (www.odysseiajogos.com.br).
    Elas produziram os jogos SAMURAI e ARTE MODERNA respectivamente, jogos consagrados no mercado europeu made in brazil !
    Podemos afirmar que é um produto raro, mas dizer que não existe é um crime contra a coragem destes empreendedores.

  4. Aleixo

    Muito obrigado pelos comentários! Irei encaminhar todos para o Marcelo, e tentaremos cobrir também algumas das dúvidas que vocês levantaram em próximos artigos.

    O Antonio Marcelo escreve regularmente também no seu Luderia Digital, segue o link:

    http://luderiadigital.blogspot.com/

  5. Antonio Marcelo

    Antes de tudo quero agradecer os comentários de vocês, e já vou avisando que em breve teremos um PNP para todos baixarem de minha autoria juntamente com a do Flávio Jandorno.

    Mas apesar de citarem as iniciativas do Zatz, da Ilha, e das pessoas em geral (inclusive as minhas). estamos num limbo lúdico sim !

    Não temos uma feira de jogos (a Abrin é feira de brinquedos), não temos um concurso de design tipo o E-2008 ou o Hippodice, não temos empresas que vivem disto como o mercado Europeu e Americano (e tratam o jogador com respeito devido), nem temos um prêmio de reconhecimento de títulos de jogos e digo mais, não temos uma convenção como Essen ou a BGGCon. Não temos (ainda) um público como o do RPG ou cardgame que estabeleceu um mercado.

    Para mim isto é um limbo lúdico, temos que caminhar e muito. Agora o que eu gosto de ver é o otimismo de todos vocês com relação ao assunto e espero que continuem assim.

    Abraços a todos

  6. Alexander Costa

    Concordo com o Antonio sobre o limbo ludico. Ainda temos muito, mas muito caminho para ver algo um pouquinho parecido como é lá fora.

  7. Alvaro Cavalcanti

    Excelente artigo, Antonio! Me lembrou que eu ainda não me preparei para fazer a sua entrevista, mas eu não estou esquecido e quero dar prioridade a isso! Nós temos que incitar a população brasileira no geral, e não só a comunidade de jogadores. Digo isto pois apesar dos amigos acima mencionarem os movimentos atuais do mercado, pra mim, falando aqui da longínqua Recife, não estamos nem num limbo, estamos é completamente mortos!

    Ou melhor, nas minhas idas à Ri Happy e Planeta Brinquedo eu vi os jogos Os Conquistadores e As Riquezas do Sultão, e fico feliz em vê-los em meio aos já consagrados jogos. Mas não há como nevagar que isso ainda é pouco. Muito pouco.

    Como o Antonio bem frisou na sua resposta acima, nós ainda não temos eventos suficientes para divulgar e criar a cultura lúdica. Ao acessar o blog dele eu pude ver que existem eventos e turmas que se reúnem só para jogar, coisa que aqui, em Recife, nunca nem ouvi falar.

    Aqui você só encontra turmas de RPG e Magic.

    Enfim, mas toda caminhada começa com os primeiros passos, e acho que nós estamos já nos movimentando e que se continuarmos assim o futuro será bem promissor. É isso aí! :-)

  8. Antonio Marcelo

    Alvaro,

    Como o pessoal falou das iniciativas, aí no nordeste em Natal tem o Trampolim da Aventura do Tendson (http://trampolimdaaventura.multiply.com/) . Ele tá fazendo um trabalho muito legal !!!

    Abraços

  9. Artigo Sobre Eurogames « Gamer Brasilis

    [...] on October 13, 2008. Filed under: artigo | Tags: eurogames | Acabei de ler um ótimo artigo sobre Eurogames, escrito pelo Antônio Marcelo – que além de manter um blog pessoal ainda é o dono da Riachulo [...]

  10. Justus Rambaldi

    O artigo frisou muito bem a realidade atual dos jogos, infelizmente o Brasil parou no tempo, é sempre a mesma coisa, Quebra-Cabeça, Banco Imobiliário, Detetive, War, Quiz Games baseados nos chatissimos programas de auditório de TV.
    Basta consultar os catálogos das Grandes Empresas de Brinquedos Brasileiras.
    O mercado promissor é o de Action Figures, Veículos cheio de luzes e sons.
    Recentemente Investi pesado em Arkham Horror na esperança de que o pessoal passasse a jogar algo mais inteligente com uma trama mais aterradora, do que achar o simples culpado de um assassinato. Investi no DOOM e Tanhauser com a esperança de atrair os jogadores de Counter-Strike e Halo para o tabuleiro.
    Adquiri o War of the Ring, com o objetivo de mostrar que o mundo do wargame não se resume ao War. Estou adaptando para o tabuleiro o jogo Warhammer 40.000 Dawn of War Soulstorm para o sistema Batalha de Miniaturas sem Miniaturas usando a regra adaptada do Frontiers e Star Wars Mini.
    Será que estou sendo sonhador ou podemos mudar a cultura do videogame para os tabuleiros de qualidade???

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Apesar da maior parte das pessoas se referir a ludo como aquele jogo de tabuleiro quadrado, que tem um percurso em forma de cruz; a palavra - que vem do latim "eu jogo" - é um sinônimo para jogo.

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Caetano Borges é ilustrador, formado bacharel em gravura pela Escola Superior de Belas Artes da UFRJ.

Alvaro Cavalcanti trabalha com desenvolvimento há 10 anos, é formado em ciências da computação pela UNICAP (PE).


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